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A triste noite de um campeão

Crônica de Armando Nogueira conta a noite de Obdúlio Varela, capitão da seleção uruguaia de 50, após a final, num bar em Copacabana.


Obdulio Varela, capitão da seleção do Uruguai de 1950

Estava remexendo meus arquivos, nada digitais. São vários recortes de jornais e revistas, alguns dos anos 1970. Entre esses recortes estava o do Jornal do Commercio, datado de 18 de agosto de 1996. Era a coluna semanal de Armando Nogueira, com o título de NA GRANDE ÁREA. Eu era leitor assíduo dos textos e atento aos comentários de Armando Nogueira, um dos maiores jornalistas esportivos do Brasil. Surpreso com a história, que eu não conhecia, e pela beleza da crônica, juntei ao meu arquivo. O texto foi republicado pelo jornalista depois da morte de Obdúlio Varela,em 2 de agosto de 1996, aos 78 anos.

 

A triste noite de um campeão 


Esta crónica saiu, aqui, a mais ou menos 3 anos. A morte de Obdúlio Varela, semana atrasada, me impõe a republicação. É um depoimento patético. A história da noite da final de 50, no Maracanã, contada por Obdúlio Varela ao escritor argentino Oswaldo Soriano. Foi a primeira vez que “el gran capitán” abriu a boca pra falar da Copa de 50.

Na noite de 16 de julho de 50, o velho capitão não quis comemorar com o resto do time. Convidou o massagista da Celeste e saiu com ele. Os dois deixaram o hotel sem destino certo. O Rio era um vasto cemitério. Nem é uma do outro mundo se via pelas ruas da cidade.

Obdúlio e o massagista entram num bar da Avenida Copacabana. O dono do bar é um velho conhecido de outras passagens da Seleção Uruguaia pelo Brasil. Obdúlio, que já saíra do hotel um tanto calibrado, quer tomar chope. Está sem um tostão no bolso. Pergunta se tem crédito. O próprio dono traz duas canecas, espumando. Obdúlio, ainda em pé bebe de um só fôlego a primeira caneca.

Já sentado, Obdúlio vê entrar no salão um rapaz. Um rapaz que é a própria máscara da desolação. Nas raras mesas ocupadas, as pessoas ouvem, desconsoladas a lamúria do moço. Ressoa pela sala a tristeza cósmica do povo brasileiro.

— O Obdúlio derrotou o Brasil! — dizia, em pratos, o torcedor.

O desabafo bateu de mau jeito no coração de Obdúlio Varela. De repente, ele se sente o carrasco de um povo. O próprio Obdúlio, narra, na primeira pessoa o drama que passaria a viver naquela noite sombria do futebol brasileiro.

— Eu olhava aquele rapaz sofrido. Foi me dando um mal-estar. O povo desse país tinha preparado o maior Carnaval do mundo e nós arruinamos tudo. De repente, eu estava tão amargurado quanto ele. Teria sido bonito ver uma noite de Carnaval dos brasileiros. Teria sido emocionante ver a multidão delirando com uma coisa tão simples, tão singela. Nós tínhamos estragado a festa e, a bem da verdade, não tínhamos ganho nada. Conquistamos um título, muito bem. Mas, que seria isso comparado com a tristeza imensa de uma gente tão simpática? Pensei no Uruguai. Certamente, o povo lá estaria muito feliz. Mas, eu Obdulio, eu estava no Rio, no meio de uma profunda decepção nacional. Lembrei-me da raiva que tive quando os brasileiros nos fizeram o gol. E, no entanto, a bronca que dei no campo, iria doer em mim também.”

O dono do bar foi à mesa do campeão, levando pelo braço com o rapaz, ainda choroso.

— Sabe quem é esse? Esse é o Obdúlio Varela — E apresentou um ao outro.

—Tive a súbita impressão de que aquele rapaz podia me matar — confessa Obdúlio — e se matasse talvez me recesse absolvição.

— Por favor, Obdúlio — disse, reverente, o rapaz — você quer tomar um chopp comigo?

Obdúlio aceitou. Mudou de mesa. “Se tiver que morrer aqui, não pode existir noite mais apropriada”. — pensou.

A noite do triunfo, Obdúlio Varela passou-a, inteirinha, esvaziando canecas e consolando aquela alma penada que acabara de conhecer. Um pobre coração destroçado. E a quem lá pelas tantas da madrugada, talvez tivesse confessado, como confessaria, mais tarde, ao escritor Oswaldo Soriano:

— Se tivesse que jogar, de novo, aquela final do Maracanã, não se assombre com o que vou lhe dizer: eu faria um gol contra. Um gol contra, sim senhor!

O final do surpreendente depoimento é um libelo contra dirigente do futebol uruguaio. Recorda Obdúlio, enfurecido, que os cartolas ficaram com as medalhas de ouro da copa de 50; que jamais respeitar os campeões mundiais. Nem os de 24, nem os de 28, nem os de 30 e muito menos os de 50.

Obdulio não perdoa tão pouco a crônica esportiva.

— Os jornalistas sempre se meteram na minha vida privada. Rompi com todos eles, para sempre.

Quem viveu o futebol dos anos 40/50 lembra-se de Obdulio. Era um caudilho majestoso. Centromédio e Capitão da equipe, ele encarnava o espírito encrespado da camisa celeste. Cansei de vê-lo jogar pelos Campos do mundo. Era um mulato forte. Hercúleo. O torso parecia um armário, dos grandes. Craque nunca foi, mas jogava o corpo e a alma em cada disputa de bola. Era um épico. Corria pelo campo, altivo, como se estivesse empunhando a bandeira do Uruguai. Jamais esquecerei a metáfora poética com que o definiu Antônio Maria, descrevendo a epopeia do Maracanã: “Obdúlio amarra as chuteiras, não com os cadarços, mas com as próprias veias”.

Não ousaria interpretar o coração de Obdulio Varela. É demais para o sobrevivente da catástrofe de 16 de julho. Sempre imaginei ”El capitán” numa festança, tomando champanhe na taça efusiva da vitória uruguaia. E, no entanto, fico sabendo, agora, que o herói da batalha do Maracanã; o general que tramou o gol de Gighia, nossa maldição, acabaria a noite metido num botequim de Copacabana, bebendo conosco no chope aguado, as lágrimas da nossa desventura.


Armando Nogueira, jornalista esportivo.

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