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Uma morte que não pode ser em vão

Artigo da Dra. Katia Rubio faz referência à morte da jogadora Walewska e o significado para o esporte.


Disputa de bola acima da rede num jogo de voleibol
Morte de Walewska Oliveira surpreendeu o Brasil


O público brasileiro foi surpreendido nessa quinta-feira, 21/9, com a trágica notícia da morte da ex-jogadora de voleibol, e campeã olímpica de vôlei feminino (Pequim 2008) Walewska Oliveira, aos 43 anos. Walewska teve uma trajetória brilhante, marcada por grandes conquistas.

A Dra. Katia Rubio, professora associada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, livre docente na Escola de Educação Física e Esporte da USP e referência internacional em estudos olímpicos e psicologia social do esporte, no seu artigo, observa e destaca outros significados para o esporte acerca do trágico acontecimento.



Resumo


Nesses anos todos trabalhando com as narrativas biográficas de atletas brasileiros pude acessar diferentes trajetórias em momentos históricos muito distintos.


Íntegra


Ser atleta na primeira metade do século passado era ser amador, ou seja, “fazer algo por amor”. Nada era mais premente que buscar um resultado que afirmaria a excelência tão almejada no esporte: a vitória, a medalha, o reconhecimento social. Além disso há que se destacar que diante da escassez de mulheres no cenário competitivo treinar, competir, ganhar, perder e encerrar a carreira, quando se tornava uma questão existencial, era acima de tudo, algo que se circunscrevia ao universo masculino.


No processo de superação do amadorismo pelo profissionalismo a transição de carreira deixou de ser apenas o fim da busca de um sonho a ser realizar por meio da competição e passou a implicar elementos caros aos profissionais que trabalham com a aposentaria e as mudanças na identidade profissional e pessoal. A situação de atletas profissionais no Brasil é ainda mais dramática porque essa profissão simplesmente não existe, a não ser para o futebol. Não há trabalhadores do esporte reconhecidos como tal, e consequentemente, não recai sobre eles quaisquer direitos dados a outros trabalhadores.


A transição de carreira de atletas brasileiros da fase do profissionalismo carrega uma semelhança com o fim da escravidão: dá-se a “liberdade”, mas não as condições para que ela seja exercida. Assim como muitas das mulheres chinesas que foram libertadas dos sapatos de ferro preferiram mantê-los a lidar com a dor que a falta deles causava, atletas esgotam a energia que não têm diante da possibilidade de deixar a profissão que lhes confere uma identidade.

A transição de carreira representa uma morte em vida. É preciso morrer para uma identidade e nascer para uma outra. E as dificuldades não param aí.


Se o nível de exigência sobre os atletas homens sempre foi alto ele é multiplicado ad infinitum na trajetória das mulheres. E isso se intensifica ainda mais no processo de profissionalização quando muitas mulheres passam a carregar não apenas a si mesmas, como às suas famílias de origem e homens chamados de namorados, noivos e maridos, a dúvida sobre a maternidade ou muitas vezes sobre o que é ser mulher com direito a voz e voto. Mas, tudo isso fica camuflado, escondido dentro do uniforme daquela mulher que é uma mulher maravilha, visível, potente, gostosa, desejada, ovacionada. E isso costuma ter um fim, junto com a carreira da mulher atleta.


Algumas atletas são fênix, renascem das cinzas, para outras carreiras brilhantes. Estudam, buscam seus espaços, constroem suas carreiras e usam na vida cotidiana tudo aquilo que o esporte lhes ensinou. São competitivas sim, porque não há mal nenhum em buscar o melhor de si todos os dias, respeitando as regras do jogo e as adversárias. Quem não gosta de um jogo bem jogado? Quem não gosta de descobrir os limites do corpo em performances divinas? E nada disso se dá ser esforço, sem agón. Seja no esporte, seja na vida. Em um estudo realizado há alguns anos foi possível constatar que as mulheres atletas estudam mais, fazem mais pós-graduação, fazem mais de uma graduação e vão para o mundo do trabalho plenas.


Mas, nem sempre é assim.

Há também aquelas que vivem a transição de carreira com a intensidade da sombra que se projeta como manto de invisibilidade que recai sobre a vida como os tantos poentes do inverno, frios, longos e solitários. Sem apoio a melancolia que acompanha esse processo facilmente se transforma em patologia, contribuindo ainda mais para a multiplicação das tantas perdas que vão se avolumando aqui e ali. É também esse um momento de avaliar as relações pessoais, familiares e conjugais. Não raro os casamentos se afundam em crises, demonstrando a fragilidade do tecido que os sustentava.


Choca a todos nós que estamos próximos ou semi-distantes desse grupo uma situação como a morte de Walewska porque a atleta morta não é apenas ídolo, ela partilha ambientes conosco e dali podemos extrair parte de sua humanidade. E o que acaba com uma queda de 17 andares é um pouco do humano dela que também habita em nós.

Anos atrás pedimos à presidenta Dilma, pela voz da Fabizinha que voltava de Londres com uma medalha de ouro olímpica no peito, uma política pública de transição de carreira e aposentadoria para atletas que no Brasil, apesar da profissionalização, não são profissionais reconhecidos.


É hora de voltar a se falar sobre algo que caminhe nessa direção. Profissionalizar significa tratar os atletas com o mesmo respeito que é dado a outros trabalhadores. Quem sabe assim a transição deixe de ser o fantasma que assombra atletas, a razão de ser do esporte, retirando-o da condição de uma abstração para ser um fenômeno social.


Cordenadora do Grupo de Estudos Olímpicos, desde 2001. É uma referência internacional no campo dos Estudos Olímpicos e Olimpismo.
Profa. Dra. Katia Rubio

Bacharela em Jornalismo na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero (1983) e Psicologia na PUC-SP (1995).

Mestra em Educação Física pela EEFE-USP (1998)

Doutora na Faculdade de Educação-USP (2001)

Pós-doutorado em Psicologia Social na Universidade Autônoma de Barcelona (2004)

Professora associada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, orientadora nos programas de Pós-graduação da EEFE-USP e FE-USP.

Livre docente na Escola de Educação Física e Esporte da USP

Organizou 33 livros acadêmicos nos últimos 20 anos na área de Psicologia do Esporte e Estudos Olímpicos

Cordenadora do Grupo de Estudos Olímpicos, desde 2001. É uma referência internacional no campo dos Estudos Olímpicos e Olimpismo.


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